terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Eu sei...mas não devia


EU SEI QUE A GENTE SE ACOSTUMA. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma (Marina Colasanti)

obs: To master cansada hoje, por isso deixo esse texto aí em cima...expressa bastante coisa que eu me identifico...

11 comentários:

Vilma disse...

Lili amo esse texto é como uma frase do teatro mágico... tanto faz não satisfaz oq eu preciso


bjxxx migaa!

EDUARDO POISL disse...

não quero partir
porque não há chegada,
a ponte do sonho caiu,
sem margens
a minha rota
atravessa o suor
de gaivotas poisando,
pétalas de sorrisos
sugam-me os lábios
salpicando o meu rosto,
és uma flor ?
pergunta-me o vento,
não, não sou nada,
quero ser o mar
simplesmente,

poetaeusou


Uma bela semana pra você...
Abraços

Vilma disse...

Lili!!!
Sejas felizzz só hoje hehe e descobrirá a chave pra ser feliz sempre

bjxxx
sz'

Julio César disse...

Belo texto, nunca tinha lido ele ;p (li agora)..

Verdadee isso tudoo aew..
agentee tem ki viver mais a vida..

gosteii do Blogg..

Ireii acompanhar..
se kiser acompanhar o meu fike avontade ;P

beijooo ;*

http://esperaqueosoljavem.blogspot.com/

Felipe disse...

Mundo globalizado...

João Bertonie disse...

Esse texto é tao mágico meu Deus.
A gente acaba se acostumando as coisas ruins da vida por simplesmente falta de escolha, sufocamento.

Amei o texto da gênia


beigos mil, passa lá no meu blog

Anônimo disse...

E não é que tudo isso é verdade? Infelizmente... ='(

Jhenifer Pollet ♥ disse...

Sabe... Cheguei a conclusão que somos mal acostumados e acomodados... por medo ou por algum receio aceitamos as coisas nas quais não deveríamos aceitar ou simplesmente nos acostumamos com elas sem querer brigar pelos nossos direitos... Tenho certeza que não só você se identificou com o texto, como muitos! beijooos cada vez mais amo esse lugar!

kellen valeska disse...

Oie Lili..

Olha lê seus posts anteriores,vc estava linda na sua formatura...
Agora só posso te desejar mt sucesso daqui para frente!hehe=)

Lili,infelizmente agente se acustuma mt,e deixa as coisas fluirem da forma como sempre foi,acho q tem faltado uma revolução no mundo,como aquelas de antigamente,as pessoas precisam começar a dar valor as coisas simples da vida,sem se preocupar com essa correria do cotidiano!

bjo;)

Marianna disse...

Procrastinar é o ato de deixar para depois... =P
Adoreeeei o texto. Me identifiquei um bocadinho nele. =D

Beijos pra ti lindona.

Cake disse...

eu já tinha lido esse texto antes...claro não lembrava...mas sabe é bem o que sinto hj...qro desacostumar com tudo...fazer tudo diferente...te adoro lilizinha =)